VULNERABILIDADE

Exposição A Vulnerabilidade da Solidez

Texto Curatorial- João Paulo Quintella

Galeria Simone Cadinelli-RJ

2020

www.simonecadinelli.com/a-vulnerabilidade-da-solidez

Quando sólidos

João Paulo Quintella

A melhor das pretensões é a instabilidade.

A escultura não funciona aqui como categoria mas como um estado. Desimpedido, solto e escorrido. A Vulnerabilidade da Solidez afirma um não condicionamento da cera, do breu e dos tecidos usados por Isabela Sá Roriz. A reiteração de um estado frugal dos sólidos.

O molde não serve à artista como ferramenta de compressão mas sim de transbordamento. Se por um lado o molde oferece ao material um lugar para acoplar-se, por outro a dinâmica proposta pela artista favorece a superação do espaço ofertado.

A forma se dá em relação com o molde e não por determinação dele. Esse método revela o posicionamento da artista com relação à escultura. O molde, signo da lógica e da forma moderna, está presente, mas é sobreposto pelo descontrole e ambiguidade contemporâneos. É essa dualidade que define o comportamento de suas obras. A escultura é provocada a moldar-se a si própria.

A forma por acúmulo foge de uma espacialidade horizontal ou vertical. A cera que se aglutina corre de modo orgânico, elementar e inaugural. Se o material não se desenvolve por contenção é por que a lógica aqui não é a da pré determinação mas da atitude da artista e da pré disposição do próprio material.

Desejo e execução apresentam diferenças, defasagens, e nelas o trabalho ganha ímpeto. Qualquer frustração resultante da manipulação indômita da matéria pela artista acaba por conferir unidade a obra. Conjugar na escultura o fluxo entre matéria e processo, entre representação e fenômeno, é portanto o que atribui ao trabalho de Isabela Sá Roriz sua qualidade de fato estético.

A dramaticidade escultórica se pronuncia como presença, visualidade e textura. Dispostos no espaço, criando relações de distância e proximidade, os trabalhos apelam para seu sentido de experiência. A organização instalativa, onde os objetos comunicam-se entre si, reforça a tridimensionalidade objetos e o caráter dialógico entre obra e espaço, entre material e artista.

Assim os sólidos de Sá Roriz ganham espessura e temporalidade próprias, definidos pela fragilidade e mutabilidade das esculturas. Um tempo da carne. Uma topografia libidinal. Avessa à estrutura e à edificação. Referentes à erosão, ao desgaste.

O lugar último é o corpo. Um corpo que, como a escultura, é um estado lascivo, lânguido. A solidez da artista é o contrário da nossa. Podemos então descansar de toda convicção e deixar que as vicissitudes da matéria sejam a única condução.

When solids

João Paulo Quintella

 

Instability is the best of all intentions.

 

Sculpture does not function here as a category but as a state. Clear, loose and fluid. The Vulnerability of Solidity affirms a non-conditioning of the wax, pitch and fabrics used by Isabela Sá Roriz. The reiteration of a frugal state of solids.

 

The mold does not serve the artist as a compression tool, but as an overflow. If, on the one hand, the mold offers the material a place to get into, on the other, the dynamics proposed by the artist favors exceeding the offered space.

 

The shape takes place in relation to the mold instead of being determined by it. This method reveals the artist’s position in relation to sculpture. The mold, a sign of logic and modern form, is present, but it is overlaid by the contemporary lack of control and ambiguity. It is this duality that defines the behavior of her artworks. The sculpture is provoked to mold itself.

 

The form by accumulation escapes horizontal or vertical spatiality. The agglutinating wax flows in an organic, elementary and inaugural way. If the material does not develop by containment, it is because the logic here is not that of pre-determination but of the artist’s attitude and the predisposition of the material itself.

 

Desire and execution present differences, discrepancies, and Isabela´s work gains momentum in them. Any frustration resulting from the artist’s indomitable manipulation of the matter ends up bringing unity to each piece. Combining in the sculpture the flow between matter and process, between representation and phenomenon, is therefore what attributes Isabela Sá Roriz’s work its quality of aesthetic fact.

 

Sculptural drama is pronounced as presence, visuality and texture. Arranged in space, creating relationships of distance and proximity, the works appeal to their sense of experience. The installation aspect, where objects communicate with each other, reinforces the three-dimensionality of objects and the dialogical character between work and space, between material and artist.

 

Thus, the solids of Sá Roriz gain their own density and temporality, defined by the fragility and mutability of the sculptures. A time of the flesh. A libidinal topography. Averse to structure and edification. Reverent to erosion and wear.

 

The ultimate place is the body. A body that, like her sculpture, is in a lustful, languid state. The artist’s solidity is the opposite of ours. We can then rest from all conviction and let the vicissitudes of matter be the only thing leading us.

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