Flácida

 

Flácida

Exposição individual Ali na Alice

curadoria Fernanda Pequeno

 

Prezado Bataille,

Escrevo esta carta porque há tempos me intrigam os fragmentos que chegam até mim da revista Documents. Amo a ideia do Informe, amo a insubordinação dos materiais, o exercício constante de não dar forma as coisas… Mas acho um tanto utópico, porque damos forma o tempo todo… Como ao escrever esta carta, por exemplo, tenho que dar forma aos pensamentos, encaixá-los em palavras…

Mas acho que a ideia do Informe tem me ajudado muito a não reduzir aquilo que faço a significados específicos, a representações. Deixar os objetos abertos a dessemelhanças, a heterogêneos, a perturbações, permeáveis por conceitos, sem que se possa de fato agarrar uma ideia apenas. Bom esse é o exercício que faço…

Mas te escrevo por outro motivo também, para conversarmos sobre uma borda, a borda entre corpo e espaço. Se é que ela existe… Para você, qual seria esse limite?

O cientista Miller, em 1953, fez uma experiência muito interessante, forjou uma atmosfera primitiva com gazes e vapores d’água e fez com que uma descarga elétrica atravessasse essa atmosfera. Nessa ação ele obteve uma grande quantidade de moléculas tipicamente encontradas nos organismos celulares dos seres vivos atuais. Então, acredita-se que as moléculas orgânicas se originaram no meio e os organismos se formaram a partir dessa interação, selecionando o que existe, ou existia, para construírem a si próprios.

Sei que contestarás essa experiência, que não acreditas na ciência, mas ela nos serve para fomentar pensamentos, e não certezas, pois pensamento também é criação… Essa experiência, no caso, me serve para pensar que a borda entre corpo e espaço é finíssima, uma película, uma membrana o tempo todo permeável.

Portamos o espaço no corpo, na carne.

Entendo quando você diz que a arquitetura é um modo absolutista de controle das multidões. Porém, se habitamos a geometria e vivemos boa parte de nossas vidas nela, portamos a geometria na carne. Será que, então, não cometemos um equívoco ao distanciá-la, ao mantermos ela longe do corpo, como uma oposição?

Trabalho agora num projeto que talvez possa ser intitulado Por uma Geometria Carnívora. Uma geometria mole, flácida, com textura de corpo, composta por materiais que têm estruturas macromoleculares, semelhantes às estruturas macromoleculares do corpo. Esses objetos, feitos com materiais industriais, trazem uma densidade de corpo, uma estranha dessemelhança e conjunções de heterogêneos, uma rigidez flácida, uma fragilidade ameaçadora… Mas gostaria, de fato, de trazer com isso alguma visceralidade dilacerante, mesmo que geométrica…

Não sei se consigo… Gostaria que visse…

Beijos,

Isabela.

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